Padre Paulo

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Inácio de Antioquia, grande teólogo do primeiro século, escreveu: "É melhor ser silencioso e real, do que falar e ser irreal". Em todas as tradições religiosas da humanidade, um dos pontos de consenso é justamente a respeito do valor do silêncio. Estamos o dia todo envolvidos em muito barulho: carros, buzinas, pessoas falando o tempo todo, crianças gritando, sons de telefone, rádio, TV e tantas coisas mais. O barulho não somente cansa e esgota a pessoa como torna-nos agressivos, estressados, superficiais e fora do nosso centro ou equilíbrio.

O silêncio é fundamental para a saúde física, psíquica e espiritual. Pessoas silenciosas são profundas. Pessoas barulhentas são superficiais. Madre Teresa de Calcutá dizia que chutar uma lata vazia faz mais barulho do que uma lata cheia. Pessoas barulhentas são muito vazias.

 O silêncio ajuda-nos a encontrar com a gente mesmo. Talvez seja por isso que muitos fogem da quietude. Tem medo de se encontrar. Preferem permanecer na ilusão a respeito de si a ter que confrontar-se com seus defeitos, carências, feridas, desejos e culpas. Porém, ninguém é só negatividade. O negativo deve ser aceito, amado para que, abertos à Graça de Deus, sejamos redimidos.

 Fugir do silêncio – do encontro consigo – pode levar-nos a viver uma grande mentira a vida toda e não descobrir nossas potencialidades, qualidades, dons, talentos e capacidade. A quietude nos conduz ao encontro com Deus. Quem mergulha no silêncio diariamente, jamais voltará como era antes ou pensava ser. O silêncio nos faz pessoas mais equilibradas, centradas, lúcidas. Torna-nos mais atentos e sensíveis aos irmãos e às manifestações de Deus em nossas vidas.

 Cristo, depois de intenso trabalho evangelizador junto às multidões, fugia para os montes silenciosos para seu encontro com o Pai. Hoje, nossas igrejas tem se tornado lugares de barulho. Fala-se demasiadamente antes e durante as celebrações. Celulares tocam e são atendidos no momento mais sublime de oração. Faltam momentos de quietude. O risco é tornar nossas igrejas espaços onde escutamos somente a nós mesmos e o que nos é conveniente. Falar demais, ser barulhento, fazer da oração discursos intermináveis é uma forma de abafar a voz de Deus.

 Temos medo do silêncio e não somos educados para saboreá-lo. Temos medo não só de encontrar conosco, mas de ouvir a voz de Deus e encontrar-nos com sua presença luminosa. Não queremos ver como espessas são nossas trevas. O que o Senhor vai pedir se eu escutá-lo e deixá-lo vir ao meu encontro? Por isso, é mais fácil uma religião de muita cantoria e pouco compromisso, de busca de curas e milagres do que verdadeira conversão ao Evangelho.

 Gostaria de sugerir aos nossos paroquianos tirar pelo menos 10 minutos no seu dia em algum lugar silencioso. Sentado, deitado ou mesmo de pé – de preferência em uma posição confortável – olhos fechados, apenas saboreando o silêncio. Não se prenda às imagens, pensamentos ou sentimentos. Deixe tudo vir e ir embora livremente. Apenas saboreie o silêncio e perceba como a quietude leva você a sentir-se mais integrado, aberto a Deus e aos irmãos. O silêncio prepara o coração para a oração como encontro com o Senhor.


Autor: Padre Paulo


Tags relacionadas: Paróquia São Paulo, Muriaé

Em 30/12/2011 às 10:14h - Atualizado em 30/12/2011 às 17:41h

O Cuidado na Vida do Discípulo

"A poesia é face da beleza divina, a pegada de Deus na brutalidade das coisas" Adélia Prado

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Hoje, a evangelização pede de nós o cuidado do outro e com o planeta. Isto se chama "ecologia profunda". Cuidar é prestar e dar atenção. Deus – Pai, Filho e Espírito Santo – não só cria o mundo e o ser humano, mas cuidam: prestam atenção em nós. Não foi sem motivos que a filósofa judia francesa, Simone Weil, definiu a oração como a atitude de "prestar atenção".


A palavra "inteligente", proveniente do latim, significa "aquele que sabe ler por dentro".  Cuidar é "ler por dentro", agasalhar, aquecer num mundo brutal, frio e violento.  Viver é difícil. Requer muitas lutas, esforços, buscas, erros e acertos. Na vida, cada pessoa se constitui como um herói na luta diária.

Olhando para as pessoas, reconhecemos que a maioria é gente boa. Aquelas que fazem o mal, o praticam por ignorância, doença ou porque na trajetória da sua existência tornou-se refém de forças inconscientes. O mal aceito, consentido pode nos possuir. Esta verdade nos é revelada nos Evangelhos quando tratam dos possuídos pelo diabo ou espíritos impuros. O pecado existe e é fruto da liberdade humana. Porém, uma vez aceito vai escravizando a pessoa e tirando-lhe a liberdade.


Somos chamados a "cuidar" de Deus, dos outros e das obras da criação. "Cuidar de Deus" é ter e prestar atenção no Senhor. Trata-se de con- templ-ação, pura gratuidade, cordialidade. O cuidado com os (as) irmãos (ãs) chama-se serviço. É pura misericórdia, compaixão, carinho e ternura. O cuidado com as obras da criação – inclui todas as criaturas – é a percepção de que "o Espírito dorme na pedra, acorda na flor, está animado no animal e se sabe animado no ser humano" (Tilhard de Chardin). O ser humano é a única das criaturas dotada de inteligência – capacidade de ler a partir de dentro – consciência e moralidade. Para os índios astecas, a educação deveria levar a pessoa a ter o rosto sem sombras, ou seja, sempre iluminado.Hoje mais do que nunca, cuidar é colocar limites em nossas voracidades: do prazer, do ter, do poder e do domínio.


Andando pelas ruas encontramos pessoas que dormem debaixo de viadutos, pontes, calçadas ou portas de igrejas. Quem são estes mendigos, alcoolizados, drogados, descartados pela sociedade? São meus irmãos. São "invisíveis sociais", tratados como "lixos humanos", "detritos da sociedade de consumo". Não são gentes, pessoas, não tem voz e nem vez. No entanto, são meus irmãos e "irmão não se escolhe, se acolhe".    


O que mais negligenciamos em nossa vida religiosa é a qualidade de nossa presença. Rezamos muito ou dizemos rezar, fazemos exercícios espirituais, retiros, missas diárias, recreios comunitários e trabalhamos em nossas obras e tudo isto pode ser uma forma de anestesiar nossa consciência. Podemos nos cegar e nos ensurdecer, perder a sensibilidade do coração, fechados em nossos conventos, igrejas e perder de vista o essencial. Nunca é demais lembrar que os sacerdotes, os fariseus, doutores da Lei e escribas eram observantes das leis e normas. Eram pessoas muito religiosas. No entanto, surdos, cegos e insensíveis. Qual é a qualidade de minha presença entre o povo? Qual é o sinal que sou entre os pobres e marginalizados? Ninguém é sinal para ficar escondido dentro de uma igreja, na sacristia ou no convento. Cuidado para não ouvirmos aquela pergunta: "Que tipo de luz foi você? Você se esqueceu que eu disse que ninguém acende uma lâmpada para colocá-la debaixo de uma mesa? O que você fez com a luz que eu lhe dei? Simplesmente a desperdiçou? Infelizmente, a Vida Religiosa pode não ser sinal nenhum. A Vida Religiosa só tem sentido para que os outros encontrem Deus em nós e a partir de nós.


Quantos encontros abortados? Quanta falta de cuidado, atenção? Quanta vida desperdiçada por muito fazer (Marta) e esquecer o essencial? Ser discípulo missionário. E ser missionário é ir ao encontro do outro. Na cena da mulher pecadora, a mulher quer acolher Jesus, porque sabe que naquele ambiente Ele não foi bem recebido. No seu acolhimento do Cristo rejeitado, ela também é acolhida e curada. Somos curados quando acolhemos e somos acolhidos, cuidamos ou somos cuidados. Infelizmente, negligenciamos o que acontece conosco, nos tornamos superficiais, fazedores de coisas. Esquecemos que Deus é relação e nós purificamos o nosso coração nas nossas relações. A pedagogia de Jesus é procurar estar onde o povo pobre e marginalizado se encontra, acolhendo e entendendo suas e nossas mazelas. Hoje estamos fazendo o contrário de Jesus: fugindo do povo pobre e humilhado, trancando-nos em conventos e igrejas, buscando confortos e tranqüilidade e, o pior, deixando apagar a "nossa luz".


O nosso tempo pede de nós: ser "peregrinos do diálogo" para nos aproximar das experiências dos outros; viver humanamente aceitando nossas vulnerabilidades; exercer a arte do cuidado como resposta ao sofrimento e a morte. Victor Frankl, psicólogo e pai da logoterapia – terapia do sentido – dizia: "o sofrimento é o teste da densidade da vida de alguém".  Eu deveria ser identificado, ainda que passasse pelos maiores sofrimentos e lutas, como alguém de gestos equilibrados, homem ou mulher com a vida marcada pela densidade da fé, pessoa de fronteiras e não de barreiras.

 

PARA REFLETIR/REZAR:  Lc 7,36-50

1.       Qual é a qualidade de sua presença entre os pobres e marginalizados?

2.       Como você está exercendo a arte do cuidado com Deus, com os outros e com a Criação?

As pessoas ao seu redor, o povo, os pobres e marginalizados percebem você como um sinal – uma luz – entre eles?

Autor: Padre Paulo Roberto Gomes, MSC


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